sexta-feira, 13 de junho de 2008

18. E-book LIM | Avaliação heurística

Baseando-me numa análise não empírica, procedi à avaliação da interface do e-book tendo em conta a avaliação heurística introduzida por Nielsen e Molich em 1990. Estas heurísticas foram revistas posteriormente e publicadas no livro "Usability Inspection Methods" (J. Nielsen & R. Mack, 1994). Nesta obra os autores estabeleceram um conjunto reduzido de guias para a usabilidade, através das quais se torna possível identificar os principais problemas encontrados num website. Embora o meu trabalho se refira a um e-book, a checklist (lista-padrão) poderá ser adaptada a este caso específico. A checklist consiste em 10 princípios básicos que servem apenas como guia (a lista pode ser aumentada ou diminuída conforme a subjectividade do avaliador, o tipo de análise ou a experiência do utilizador):

  1. Visibilidade do estado do sistema;
  2. Correspondência entre o sistema e o mundo real;
  3. Controlo e liberdade do utilizador;
  4. Consistência e standards;
  5. Prevenção de erros;
  6. Reconhecimento em vez de lembrança;
  7. Flexibilidade e eficiência no uso;
  8. Estética e design minimalistas;
  9. Ajuda aos utilizadores no reconhecimento, diagnóstico e recuperação de erros;
  10. Ajuda e documentação.

Para analisar cada heurística utilizei a seguinte estrutura, criada por Darryn Lavery, Gilbert Cockton e Malcolm Atkinson, em 1994, que sistematiza as heurísticas de Nielsen:

  • Conformance Question - o que o sistema ou o utilizador deve fazer para satisfazer a heurística;
  • Evidence Conformance - apresentar provas ou comportamentos da satisfação ou insatisfação dessa heurística;
  • Motivation - apresentar os problemas de usabilidade que a heurística procura evitar.

  1. Visibilidade do estado do sistema

O feedback do sistema permite indicar ao utilizador o estado de realização de uma determinada tarefa. No e-book não existe feedback. No entanto, como se trata de um e-book em formato pdf esta questão poderá assumir contornos distintos. Poderá ser aplicado feedback quando são abertas as páginas na Internet, no caso das simulações e enquanto se navega de página em página dentro do e-book (já que esta navegação demora um pouco em algumas situações).

  1. Correspondência entre o sistema e o mundo real

No e-book existe uma relação com o mundo real no que diz respeito às simulações. Estas poderão, em alguns casos, parecer-se com os mecanismos reais de experimentação. No entanto, algumas metáforas são pobres e, portanto, difíceis de “manusear”. A linguagem é bastante técnica – existe uma relação com o mundo real (área de Engenharia).

  1. Controlo e liberdade do utilizador

O e-book responde a esta questão com um menu superior que permite ao utilizador navegar entre as diversas secções e subsecções. No entanto, o menu não é facilmente perceptível e, em alguns casos, as descrições das secções não se encontram muito visíveis. Portanto, esta liberdade poderá ficar afectada e obrigar o utilizador a navegar através das setas inferiores.

  1. Consistência e standards

O produto apresenta consistência e standards através da forma como o conteúdo se encontra associado à secção que lhe corresponde, pela forma como os menus são disponibilizados; pelo tamanho e tipo de letra, localização e tamanho das imagens, cores e formas dos botões. No entanto, existem situações em que o menu se “desdobra” e as descrições das secções não ficam totalmente visíveis. Nestes casos torna-se complicado perceber qual o tema da página em que o utilizador se encontra. Além disso, na primeira página de cada menu, onde são disponibilizados os subtemas, as formas assumem posições e tamanhos aleatórios e em alguns casos as letras ficam pouco legíveis. O utilizador poderá “perder-se” no percurso e não perceber qual é o “padrão de navegação”. Poderá ainda ter dificuldades em ler a descrição da secção.

  1. Prevenção de erros

A arquitectura de informação do e-book está estruturada mediante um menu que se encontra no “Índice de Capítulos”, tal como num livro. Contudo, é importante perceber que este é um suporte digital e que a metáfora pode não levar o utilizador pelo caminho desejado. Se o utilizador se encontrar numa determinada página, como por exemplo, no “Capítulo VIII – Medição de temperatura: termómetros de resistência”, é obrigado a perceber a estrutura de navegação previamente, caso contrário, dificilmente perceberá que é necessário clicar no menu superior e depois novamente nas duplas setas (“rewind”) para chegar ao “Índice de Capítulos” e para partir para outra secção.

  1. Reconhecimento em vez de lembrança

No e-book esta questão parece ter sido esquecida. A estrutura de navegação obriga o utilizador a percebê-la primeiro por não ser intuitiva. Não existem affordances nem nos menus, nem nos botões; em geral não são facilmente perceptíveis as áreas clicáveis. O utilizador poderá perceber o esquema de navegação através do texto que se encontra disponível nos menus, mas inicialmente precisaria de um tutorial para perceber como funciona a navegação no e-book. Como não existe um “mapa do site”, neste caso “mapa do e-book”, o utilizador tem de experimentar o produto primeiro para perceber como “manuseá-lo” correctamente.

  1. Flexibilidade e eficiência no uso

Como foi apresentado na heurística anterior, o utilizador necessita de experimentar o produto previamente para perceber como navegar nele. O acesso à informação não é vedado mas é dificultado em algumas situações. Depois de perceber como funciona o produto, o utilizador poderá mais facilmente chegar ao “Índice de Capítulos” – a página a partir da qual o utilizador poderá partir para qualquer tema. Depois da experimentação inicial, o utilizador consegue mais facilmente perceber onde se encontram os botões de “retroceder” e perceber qual o sistema que o permite chegar ao caminho pretendido.

  1. Estética e design minimalistas

No e-book a informação encontra-se bem organizada em secções e subsecções; é, portanto, fácil perceber qual o tema em que o utilizador se encontra. Como foi adoptada uma linguagem muito técnica, a especificidade poderá ser um obstáculo ao utilizador. Contudo, houve um cuidado em garantir o acesso simples, rápido e eficaz/eficiente ao conteúdo. As opções disponíveis mantêm-se de secção para secção, os espaços “brancos” existem, as cores adoptadas são sóbrias e o tipo de letra é “não serifado”, o que facilita a leitura da informação e permite ao utilizador “respirar” da leitura de vez em quando sem se cansar tanto.

  1. Ajuda aos utilizadores no reconhecimento, diagnóstico e recuperação de erros

No e-book não existem mecanismos de prevenção de erros, como já foi indicado previamente. Existe, contudo, um aviso de que será aberta uma página na Internet quando o utilizador clica no botão “Simulação” ou “Experiência Remota”, por exemplo. Mesmo assim, esta situação só ocorre mediante as opções que o utilizador acciona no Adobe Acrobat, para visualizar documentos e aceder a links externos, e se as opções da Firewall do computador (de onde o utilizador acede ao produto) estiverem preparadas para apresentarem este aviso previamente.

  1. Ajuda e documentação

Seria interessante, a título de exemplo, um agente interactivo que ajudasse o utilizador a navegar pela aplicação, já que esta tarefa parece difícil num primeiro contacto com o produto. As autoras Paula M. Bach e Jennifer Lai, no artigo “Usability and Learning in a Speech-Enabled Reading Tutor: A Field Study”, apontam um tutor de leitura aplicado ao ensino e aprendizagem, o Reading Companion. Poderiam ser estudadas as possibilidades deste sistema e algumas delas aplicadas ao e-book. Poderiam ser explorados menus de acesso rápido, um motor de busca através de palavras-chave, um sistema que detectasse “tempos de espera” do utilizador, etc.

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